Grupo Da Morte De Itaperuna

O FAMOSO GRUPO DA MORTE

Situação Política À Época

Houve uma época em que, neste Município, todas as garantias desapareceram. A vida e a propriedade ficaram à mercê dos malfeitores, ladrões e assassinos que infestavam o Municipio, praticando tôda a sorte de atentados, impunemente, devido à indiferença ou falta de prestigio das autoridades policiais daqueletempo,que, segundoa opinião pública,algumas delas se acumpliciavam com os malfeitores, umas por mêdo, outras por interêsse… 

Deu causa a essa situação, a anarquia política em que se havia convertido o país, com os métodos de compressão e subornados para o triunfo da candidatura do Marechal Hermes da Fonsêca à Presidência da República, mais se acentuando essa anarquia neste Estado,ocupado militarmente pelas forças federais, auxiliadas pelos capangas dos políticos regionais, a serviço do Presidente interino da República, Dr. Nilo Peçanha,para depor o Presidente do Estado, de então, Dr. Alfredo Backer, o que conseguiu no dia 29 de dezembro de 1912, depois de ocupar o Palácio do Govêrno, em Niterói, por fôrças do Exército. 

Subindo ao poder, por essa ocasião, o Dr. F. C. de Oliveira Botelho amparados nas baionetas da fôrça federal, encontrou o Estado empobrecido e desmoralizado politicamente: todos mandavam e ninguém obedecia, a desordem continuava.

O Inoperante Governo Do Estado

Eleito pela fraude e sem apoio na opinião pública do Estado, o Sr. Oliveira Botelho, empossou-se no Govêrno e não tomou nenhuma providência para normalizar a vida do Estado, deixando que a anarquia continuasse a sua marcha sinistra, e impunemente, indiferente às reclamações das vítimas e dos protestos do povo em geral . Assaltos, mortes e roubos, notadamente de animais, se sucediam num crescendo assustador neste Município, a que vítimas, assistiam de braços cruzados, sem meios de defesa e falta de garantias da autoridade pública. 

Os ladrões já não procuravam a noite para os seus roubos; praticavam-nos em pleno dia, ostensivamente, de carabinas, forçando a entrega de animais, dinheiro e outros haveres, e intimavam as pessoas roubadas a se silenciarem, sob pena de morte. A indiferença do Governo continuava, e o povo sofria, até que um dia resolveu. Começou a reação ..!

Formação Do Grupo Da Morte

Transcorria o ano de 1913, quando no dia 4 de março, um grupo de prejudicados, tendo à frente os fazendeiros Amaro dos Santos, Domingos Macêdo, Lucas Moreira Bastos, Manoel Laxe Gouvêa de Mendonça, Francisco Lopes, Luiz de Mattos Meireles e outros, que fôram se incorporando a êstes, formando uma legião armada e municiada, que tomou o nome de –  Grupo da Morte – para justiçar por suas próprias mãos os indigitados ladrões de animais e malfeitores, devido à incúria das autoridades públicas, que por falta de prestígio para reprimirem o vandalismo que imperava na zona nordestina dêste Estado, se acumpliciaram com os amotinados e iniciaram a carnificína. Segundo a estatística daquela época, trinta e quatro fôram as vítimas executadas pelo Grupo da Morte, inclusive o fazendeiro, Coronel Firmo de Araújo, ex-presidente da Câmara da cidade de Palma, no Estado de Minas Gerais, que foi invadido pelo Grupo, sob a proteção das autoridades locais, inclusive o Juiz de Direito que se prestou a ir à fazenda daquele Coronel, buscá-lo sob garantias, ali, onde os invasores tiveram receio de ir, por estar a vítima armada e fortificada, para entregá-lo ao Grupo que o assassinou, próximo daquela cidade mineira, ficando o seu cadáver abandonado na estrada. Neste Município, fôram praticados atos de incríveis barbaridades pelos encarregados das execuções dos que eram capturados vivos. Alguns houve que fôram obrigados a abrir as suas próprias sepulturas, e nelas se deitarem, para então serem fuzilados ou enterrados vivos. Acossados pela perseguição do Grupo, alguns indigitados procuravam as autoridades públicas nesta cidade, às quais se entregavam e pediam garantias de vida, sendo, por aquelas, imediatamente recolhidos a cadeia publica, prêsos de onde retirados e entregues aos seus algozes, pelo delegado de polícia daquela triste época, o solicitador Carlos Baptista da Rocha, e fuzilados pelas estradas. Um desses indivíduos, de nome Mário estava na cadeia pública, quando um dia foi a cidade invadida por uma ala do Grupo da Morte, chefiada por Chico Pinto, que veio buscar o infeliz detento, que se supunha garantido pelas autoridades. A cadeia foi aberta pelo próprio delegado, precisamente às 11 horas do dia, e Mário, retirado dela e entregue publicamente aos seus algozes que o conduziram pela estrada da Salgada, onde o fuzilaram e o enterraram à margem da estrada. Ninguém acreditava que êsse fato se postivasse. Seria um caso virgem na história de um povo civilizado e ordeiro; no entanto, êle se verificou. Mãos piedosas erigiram uma cruz na sepultura de Mário, a qual lá deve estar com os braços abertos para lembrar ao viajar despreocupado, o local daquela sinistra tragédia. Contam que Mário, ao passar pela fazenda do Limoeiro, então, de propriedade do Coronel Francisco Lacerda, pediu aos seus condutores que o permitissem escrever um bilhete ao seu desolado pai, despedindo-se, o que lhe foi concedido. Ao terminar o bilhete, no momento em que ia traçar a sua assinatura, foi obrigado por Chico Pinto a encerrá-lo com estas palavras: – “Teu defunto filho, Mário”. Desde então, até a presente data (1930), não mais se verificaram neste Município, êsses atos de selvageria e barbaridade, que aqui narramos com profundo pesar. 

Esse texto foi digitalizado na íntegra do livro A Terra da Promissão.

As páginas correspondentes ao texto são as 124, 125 e 126.

As correções que precisaram ser feitas não alteraram nem a palavra ou sentido destas pois foram correções ortográficas com a retirada de acentos. Nota-se que algumas dessas palavras ainda mantêm a ortografia original propositadamente.

Os títulos foram inseridos por mim para separar os assuntos do texto e melhorar a leitura.

Este conteúdo trata-se de um registro histórico.

luciano.cardozo

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